Em entrevista ao Linha POP, Ferrugem compartilhou detalhes sobre a produção de seu último álbum, “Sentimento”lançado última quinta-feira, 22/01. Com estética inspirada nos anos 70 e letras carregadas de sentimento, o cantor revelou diversos detalhes que o guiaram durante a produção do projeto.
Foto: Instagram @ferrugem
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“‘Sentimento’ virou o título do álbum porque é uma palavra muito usada pelos seus fãs para te definir. Em que momento você percebeu que isso foi além de um elogio e virou um retrato da sua carreira?”
“Cara, eu sou uma pessoa que coloca muito do meu sentimento nas músicas que canto. Eu acredito que a melhor forma de tocar o coração de uma pessoa, o caminho mais curto para isso, é cantar aquilo que me cause esse tipo de sentimento, que me cause o sentimento que a música está afim de trazer.
Se é uma música triste, que eu cante ela com tristeza, pra que a pessoa possa sentir a realidade da música. Se é uma música feliz, que eu cante ela com felicidade. Então eu só canto aquilo que eu gosto, só canto aquilo que me toca, aquilo que me arrepia, de fato.
Assim eu consigo transmitir verdade nas músicas. Sempre senti que as músicas que eu lançava eram fruto do meu próprio sentimento. Muitas das vezes, mesmo não compondo elas, são fruto do meu sentimento, porque eu coloco isso pra fora.
E aí me transformaram nessa personificação de sentimento. Eu adorei, cara, porque, de fato, enquanto eu estiver fazendo música, vai ser com o máximo do meu sentimento, do meu amor, do meu carinho e da minha emoção.”

Foto: Instagram @ferrugem
“Neste disco, tudo parece ganhar uma camada ainda mais íntima. Quais diferenças você sente entre o Ferrugem de agora e o Ferrugem de trabalhos passados?”
“Cara, eu acredito que a maturidade — no meu lado pessoal, no lado empresarial e no lado musical. São separações que, no final de tudo, acabam se juntando, porque o produto final do nosso trabalho se dá em quem eu sou para as pessoas, como ser humano. Que lugar eu quero ocupar no mundo? Que tipo de profissional eu quero ser? Que tipo de músico eu quero ser? Isso tudo acaba se colocando no mesmo pacote.
Graças ao tempo, né? Só ele traz maturidade, só ele cura um monte de defeitos que a gente tem. Eu sou um cara que, na mesma quantidade que eu erro, é a quantidade que eu busco acertar e consertar. Hoje, com 37 anos, eu me considero um cara maduro e preparado para entregar minha maturidade através da música para as pessoas.
Então, fazer música para todo mundo sempre foi a minha busca. Mas, para chegar a esse resultado, eu precisava, de fato, de maturidade. Precisava me entender como pessoa, entender melhor o mundo, entender melhor tudo aquilo que o mundo oferece pra gente.”
“Existe alguma história real de fã que te marcou especialmente e ajudou a construir esse conceito do álbum?”
“Em 2017, um pai mandou um relato pra mim dizendo que o filho dele estava com câncer terminal e o moleque só queria ouvir minhas músicas, principalmente nos momentos de extrema dor física. Ele pedia: ‘pai, bota o Ferrugem’. O pai colocava ‘Estou em Tambor’que é um samba nosso, e o moleque se sentia bem.
A única coisa que eu esperava naquele momento, enxergando a realidade de fato, era o pai me dar um desfecho da história dizendo que o filho não estava mais conosco. E aí, ele disse que, em questão de duas ou três semanas, o moleque foi tendo uma melhora inexplicável para os médicos. A medicina não explicou essa melhora.
Hoje ele está vivo, curado. E o pai coloca a responsabilidade disso na música. Não em mim como pessoa. Eu não sou salvador da pátria, eu não curo ninguém. Mas a música tem esse poder. Isso só faz a gente querer cada vez mais fazer música da forma certa, aquela que toca o nosso coração.”
“Em “Sentimento”, cada faixa é tratada como um capítulo. Existe uma jornada emocional ao longo do álbum?”
“Tem uma super jornada. Antes (da conclusão), as faixas seguiam uma ordem bem certinha — início, meio e fim. Agora está meio mangá, de trás pra frente, do meio pro final e do final pro início.
Mas existe uma história ali. O álbum fala sobre duas pessoas que se conectam, se desconectam, se separam, se amam, se reencontram. Tem início, conquista, traição. Tudo aquilo que envolve uma grande história de amor. Às vezes dá certo, às vezes não. E isso faz com que todo mundo consiga se identificar.”

Capa do álbum “Sentimento” | Foto: divulgação
“O visual do projeto traz uma estética inspirada nos anos 70. O que te atraiu nessa linguagem?”
“O visual e o humor dos anos 70 e 80 sempre me pegaram muito, tanto no musical quanto no visual. Principalmente a música americana daquela época, que até hoje continua batendo forte. O “Trem da Alma” sempre me atraiu muito. Foi uma época muito romântica, onde se falou muito de amor, dos bailes de alma. Eu escutei muitas histórias do meu pai, da minha mãe, da minha avó. Me senti pertencente, mesmo que em sonho, a essa época. Sempre tive o desejo de trazer isso pra cá.”
“Houve alguma inspiração específica para chegar nessa estética final?”
“Foi uma pesquisa bem abrangente. Nos anos 70, aqui no samba, Roberto Ribeiro, Fundo de Quintal, Originais do Sambatodo mundo se vestia assim. O Brasil sempre bebeu de referências norte-americanas, tanto na arte quanto na moda. Isso me deu a licença poética que eu precisava pra fazer isso também e entender que eu estava no meu ambiente.
De uns anos para cá, apareceu o Bruno Marsque é um cara que faz muita referência à essa época. E aí me deu essa licença poética, sabe? Se ele pode, eu também posso!”
“Pensando nos shows e na turnê, como você imagina levar o clima do álbum para o palco?”
“Os nossos shows nunca são introspectivos. Mesmo sendo românticos, a tocada é forte, o som é alto. Às vezes a galera até briga comigo porque acha alto demais, mas é assim que a gente entrega intensidade. A pessoa vai a um show romântico e sai completamente lavada de suor. Esse é o diferencial.”
“Como equilibrar um sucesso tão massivo com a vontade de fazer um disco que pede tempo, emoção e paciência?”
“Se eu precisasse levar dez anos pra lançar um disco, eu levaria. Mas eu também entendo a necessidade do público. Fiquei dois anos pra lançar esse álbum, mas quando a gente lança é porque tá pronto de verdade. Eu aconselho todo mundo a escutar o disco inteiro. Foi feito com muito carinho, cuidado, gravado e regravado várias vezes. Eu não termino um disco, eu desisto dele e lanço, porque terminar não tem como. Sempre teria algo pra mudar.
Foi (um disco) feito com muito cuidado. Só em casa eu devo ter umas quatro sessões desse mesmo disco, coisa que não vou usar mais. Fomos regravando e eliminando para chegar em um resultado bacana e, graças a Deus, conseguimos chegar.”
“Se você tivesse que escolher uma faixa do álbum para apresentar a alguém que nunca te escutou, qual seria?”
“Ah, eu acho que é a faixa que está escondida, que vamos lançar depois. Tem uma faixinha escondida ali que lançaremos no mês de maio, que é “Amar ou Odiar”, e eu acho que essa música vai pegar todo mundo. É ‘temão’ de novela, de casal e tudo mais. Acho que até quem não gosta de pagode vai gostar da música.
É uma coisa que a gente ouve muito: “pô, cara, eu não ouço pagode mas as tuas músicas eu amo!”. Isso deixa a gente mais confiante para poder guardar uma música e mostrar de repente, e agradar as pessoas que não ouvem pagode.”








